O que devemos aprender com o Chile - e vice-versa

Geopolítica

Luiz Astorga

Publicado em 12/11/2019

A essa altura o leitor certamente tem ciência da onda de destruição que assola o país andino que durante anos deu ao mundo exemplo de estabilidade política e sobretudo econômica. É importante para esta análise, porém, recapitular as etapas do que ocorreu. Em 18 de outubro, após um aumento de trinta pesos (pouco mais de quinze centavos) no preço dos transportes, a frustração popular motivou grupos de estudantes a protestar saltando as catracas do transporte público, uma delinquência menor que, de início, era vista com certa tolerância pelos pagantes, também descontentes com a subida dos preços. Nos dois dias seguintes, entretanto, aconteceu algo radicalmente distinto: vinte estações de metrô foram incendiadas, outras 34 estações sofreram danos que também as paralisaram, prédios de importância estratégica como o da ENEL (empresa de eletricidade que abastece Santiago) foram atacados e diversos atos de vandalismo causaram danos colossais ao comércio chileno. As ações forçaram o presidente Sebastián Piñera a inicialmente pôr na rua os carabineiros. Na madrugada em que começaram os saques a mercados, o respaldo do Exército se fez necessário e, de imediato, o tema começou a politizar-se; logo, descendentes chilenos em países com grande número de exilados (Austrália, França e Holanda, por exemplo) davam apoio ao vandalismo, tratando Piñera como um assassino truculento.

A resposta do governo fora tardia e descoordenada, e a ineficácia dos serviços de inteligência em antecipar e neutralizar a ameaça foi criticada por figuras chilenas dos mais variados matizes políticos. Um dano imenso já era irreversível: mais de um terço da rede ferroviária santiaguina era agora um abismo de escombros. Nos telejornais (cujas inclinações não diferem muito das da nossa grande mídia), a intervenção do Exército era obviamente associada ao regime militar de Pinochet, e o grito previsível de “Piñera ditador!” ecoava pelas ruas – a despeito dos 62% de apoio popular à sua intervenção, segundo a pesquisa CADEM. Os incendiários eram agora vítimas, e vestiam como máscara diante de si a imagem do cidadão comum. Políticos comunistas incitavam a violência afrontando e insultando os militares, produzindo vídeos que colavam no presidente o mesmo rótulo de ditador.

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