As esquerdas e a questão do mercado (Parte 2)

Economia

Paulo Moura

Publicado em 05/04/2021

Antecipando-se a um destino equivalente ao da ex-URSS, o regime político vigente na China sepultou o modelo comunista clássico e partiu para a tentativa de combinar um regime político autoritário com a introdução no país, gradativamente, da economia de mercado.

A introdução do capitalismo na China ocorre por decisão, controle e iniciativa do Estado, associado ao capital internacional interessado no gigantesco potencial de consumo do gigantesco mercado interno do país, num momento em que o processo de globalização da economia levou as nações de ponta do capitalismo na direção da prioridade à economia tecnológica e de serviços em seus territórios e na transferências dos parques industriais tradicionais para a China, onde o custo da mão de obra da velha economia conferia competitividade aos preços no mercado internacional.

Esse processo de abertura para a economia de mercado combinado com vigência do regime autoritário foi ameaçado pelo contato da população chinesa com os valores e a cultura ocidentais e da economia de mercado, e pelo movimento político que levou à queda do Muro de Berlim em 1989 e a derrocada do regime soviético em 1991. A tentativa de democratização do regime chinês, sob pressão de manifestações de massa, sofreu uma inflexão emblemática a partir do massacre da Praça da Paz Celestial (1989), na qual uma manifestação com cerca de cem mil pessoas, que incluía estudantes acampados em greve de fome, foi sufocada pelo governo autoritário que reprimiu violentamente com tiros de tanque e rajadas de metralhadora o movimento pela democracia sem, no entanto, alterar as diretrizes econômicas que visam a implantar a economia de mercado na China.

A experiência chinesa evolui significativamente desde então, como tentativa de compatibilizar a coexistência entre o “socialismo” e o mercado. Na fase inicial desse processo, a China atraiu investimentos ocidentais para criar seu parque industrial, piratear tecnologias, produtos e marcas, dar origem a uma classe média consumidora emergente. Essa classe média foi estimada, com dados de 2020, em cerca de 400 milhões de consumidores que ganham entre 15.000 e 390.000 dólares ao ano. Com essa estratégia de atração de empresas ocidentais e formação de um grande mercado interno, a China tinha condições para desenvolver ciência e tecnologias próprias e competitivas que, nas décadas seguintes, mudaram o lugar do país na economia e na geopolítica mundiais.

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