Pelo bem dos saudáveis

Comportamento

Robson Oliveira

Publicado em 09/03/2021

No tempo de Jesus, a lepra constituía uma pena de morte prática. Se não era pena real, ao menos equivalia a uma pena de morte social. Afinal, os vitimados pela lepra eram proibidos de andar livremente pelas cidades, pois significavam risco real à saúde e ao bem-estar do resto da população saudável. Por isso, pelo bem dos saudáveis, eram relegados aos desertos e a lugares desabitados. Sem o contato com seus amigos e conterrâneos, os doentes viam feridas de morte uma parte importante de sua natureza: a sociabilidade. Se o homem é um ser social, como dizia Aristóteles, a lepra impedia que esta dimensão antropológica fosse realizada plenamente.

Os homens e mulheres, crianças e idosos vitimados pela lepra também eram proibidos de fechar negócios com seus concidadãos: não podiam vender ou comprar, pois eram impedidos de frequentar o mercado comum das cidades. Com efeito, na medida em que ameaçavam a segurança de toda uma população e pelo bem dos saudáveis, restava-lhes contar com a mendicância ou a caridade de alguns, visto não terem condições de trabalhar e cuidar-se sozinhos. 

Também por causa da doença, eram obrigados a gritar aos mais próximos que estavam doentes e, em outros casos, eram forçados a trazer ao pescoço uma sineta, que avisasse aos distraídos da proximidade de um leproso. Estas exigências legais impediam aos doentes o anonimato ou o esquecimento, pois estas bugigangas – se tinham o objetivo de avisar aos distantes – a eles próprios remarcava sua situação lastimável e sua chaga social. Pelo bem dos saudáveis, era-lhes negada a invisibilidade, tão desejada pelos párias sociais.

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