Cuidado, Parsons!

Geral

Leônidas Pellegrini

Publicado em 22/02/2021

Na obra-prima de George Orwell, “1984”, um personagem que sempre me chamou muito a atenção é o gorducho Parsons, colega do protagonista Winston Smith no Ministério da Verdade. Na história, Parsons encarna o perfeito idiota útil: está sempre feliz com sua condição de escravo de uma ditadura da qual não tem a menor consciência, não tem a menor noção da tirania em que vive, aceita passiva e alegremente todas as arbitrariedades e a miséria a que está sujeito (como a carestia de coisas básicas como uma lâmina de barbear e comer a lavagem que lhes é oferecida no trabalho), odeia os inimigos que o Partido manda odiar (ora eurasianos, ora lestasianos), participa entusiasmado de todos os comitês (leia-se, sovietes) e ações propostos pelo Partido, ao qual nutre, na figura do Grande Irmão, um amor devocional. 

No entanto, a consciência literalmente adormecida de Parsons parece guardar algum resquício de conexão com a realidade, pois o bobalhão gorducho acaba sussurrando, enquanto dorme, a frase “abaixo o Grande Irmão”. Por esse crime de pensamento, ele é denunciado pelos próprios filhos pequenos e levado para recondicionamento social no temido Ministério do Amor, onde, de volta ao seu estado de entorpecimento da inteligência, declara-se inclusive orgulhoso dos filhos delatores. 

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