Revolução dos Jogos

Geral

Robson Oliveira

Publicado em 11/01/2021

Aristóteles, no século IV antes de Cristo, disse que a espécie humana se distinguia dos outros animais pela busca do conhecimento: “Todos os homens desejam, naturalmente, conhecer” (Metafísica, 980 a 1), afirmou o Estagirita. Com isso, o Filósofo emprestava um caráter essencial ao ente humano: a capacidade espiritual. E dentre os modos de conhecer, a arte constitui-se ferramenta excelente para a formação da alma humana. Com efeito, o que horas e horas de aulas de metafísica e ética demorariam a construir, a leitura atenta (e muitas vezes acompanhada) de Hamlet faz o leitor perceber em um par de horas. 

A literatura, de fato, costuma ser elemento ordinário para a construção da melhor versão do ser humano. Foi assim que epopeias e tragédias iluminaram gerações de leitores desde a Grécia Antiga, favorecendo o crescimento pessoal e construindo a alma do Ocidente. Recentemente, a narrativa distópica (epopeica ou trágica igualmente) tem auxiliado na compreensão do dever-ser humano, impulsionada pelos novos desafios da tecnologia e pelas antigas tentações humanas, como a eugenia. Ainda que pela via apofática, as distopias produzidas no século XX apresentam-se como excelente auxílio para construção de melhores sociedades, desvelando as armadilhas nascidas no alvorecer do novo milênio. A Revolução dos bichos (Animal Farm – Georg Orwell) e Jogos Vorazes (The Hunger Games – Suzanne Collins) são bons exemplos e precisam ser lidos sob esta perspectiva, pois possuem ensinamentos importantes. E esta leitura torna-se mais urgente e com maior razão quando presidentes democraticamente eleitos são banidos de redes sociais e jornalistas são presos sem qualquer acusação. 

De fato, há uma área comum, onde encontram-se as distopias de Orwell e de Collins: a propaganda. É preciso dizer que sem o porco Garganta, Napoleão e seus comparsas não conseguiriam submeter tão profundamente e por tanto tempo os animais da Fazenda. Ora ocultando os fatos, ora editando-os, o porco responsável pela propaganda estatal manipulava a todos, transformando amigos em inimigos e inimigos em aliados. A leitura de Orwell demonstra sem sombras o papel da propaganda em qualquer regime autoritário: manipular, ocultar, mentir. Em Jogos Vorazes, a autora avança um pouco mais a reflexão e demonstra que a propaganda sempre vence. De um lado ou de outro, um grupo de publicitários, comunicadores, jornalistas estará lá para apoiar o partido vencedor. Neste sentido, a batalha pela divulgação das notícias é a verdadeira batalha que se deve lutar neste milênio. E que o leitor sequer imagine isenção e imparcialidade nestas paragens. Estas abstrações não existem! Nunca existiram! Trata-se de trabalhar pelo lado da verdade e do bem, sem meias-palavras, intransigentemente. Mas o mainstream não ficará imóvel, assistindo à resistência organizar-se e gerando a praga da dúvida na mente da população. Ele se organizará – e já se organizou! 

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