Urna virtual: a roupa nova do rei

Eleições

Felipe Gimenez

Publicado em 16/11/2020

A vaidade cortesã serviu atalho à trama ardilosa do astuto alfaiate que convenceu um soberbo monarca a vestir-se do manto tecido com supostos fios  mágicos visíveis apenas para os mais sábios. Vaidosos os conselheiros haviam aprovado a  arte do falso tecelão porque admitir o contrário poderia arranhar suas reputações de virtude. O desfile do rei e os aplausos terminam no momento em que a honestidade de uma criança na rua denuncia: o rei está nu! 

O conto se repete no Brasil há um quarto de século. Autoridades que nada enxergam do fato do escrutínio louvam o artefato mágico afirmando o prodígio. 

Como uma onda a Seita do Santo Byte segue fazendo prosélitos. Como poderia um juiz ou  promotor eleitoral, nas singelas instâncias, se opor ao juízo da Corte Constitucional tão sábia e suprema? Afirmar que nada veem do escrutínio porque o fato ocorre em velocidade  superior a mil kbps poderia arranhar suas reputações. Sem registro do pulso elétrico, naturalmente efêmero, contentam-se com o resultado posterior ao escrutínio. Seria arriscado para essas autoridades admitirem que o voto gerado e extinto no ambiente digital já foi escrutinado sem que pudessem fiscalizar o evento. 

O momento crucial e fugaz passa  despercebido restando unicamente o consequente produzido pela inteligência artificial fiel apenas ao seu criador. Sem registros concretos que permitam rastreio no mundo exterior, a vontade manifesta pelo cidadão jamais será conhecida. Entretanto, aquele que ousar declarar que nada vê será vaiado pela Seita do Santo Byte em coro: retrógrado! E o desfile segue impulsionado pela fé e aplauso dos prosélitos. 

A procissão conduz o enterro da República. Substantivos e adjetivos são embaralhados com o escopo de limitar a compreensão. Sufrágio, universal, voto, direto, secreto, escrutínio, democracia, república, soberania, popular. Nada importa além do credo. O manhoso tecelão segue em sua obra.  

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