A morte tornou-se anacrônica

Geral

José Carlos Sepúlveda da Fonseca

Publicado em 03/11/2020

Recordo-me do dia em que, caminhando pela cidade de Coimbra, nas imediações da Porta Férrea, encimada pela figura da Sapiência e que dá acesso à célebre Universidade, fui surpreendido pelo toque de sino da Torre que impera sobre os edifícios universitários. O toque era compassado e grave. Desprendia-se dele uma solenidade austera que parecia anunciar algum momento de consternação. Na verdade, anunciava o falecimento de um dos Mestres daquela secular Universidade.

A solenidade com que se comunicava o Mestre desaparecido, acrescida dos cerimoniais que cercariam suas pompas fúnebres, fizeram-me pensar que poucas coisas revelam tanto o sentido de uma civilização quanto sua postura diante da morte.

A morte tem por certo uma nota trágica. Mas aquela reverência prestada a alguém que povoou com sua inteligência e seu saber a Universidade e que formou diversas gerações de alunos, afirma-nos a existência de uma vida após a morte e a esperança de uma ressurreição. Fala-nos, é certo, da precariedade da existência, mas remete-nos para a disciplina, a austeridade, a renúncia, a espiritualidade. Remete-nos para uma continuidade, através dos séculos, de Mestres que, como aquele, ficaram indelevelmente ligados àquela instituição e morrendo se perpetuaram.

Conteúdo exclusivo para assinantes

Para continuar lendo e ter acesso a esse conteúdo exclusivo, assine clicando abaixo.

Assinar