Estranhos íntimos

Geral

Letícia Dornelles

Publicado em 19/10/2020

Confesso que ri alto. Parecia piada. Mas era uma reportagem supostamente séria. Uma riquíssima celebridade contava ao jornal o sofrimento que tem sido a pandemia. Em momento algum citou mortes ou contágios em família. Também não demonstrou empatia por quem vivenciou dramas reais. Citou apenas os momentos de “superação e aprendizado” que ela própria vivencia há quase sete meses “trancada” no luxuoso sítio da família na serra do Rio de  Janeiro. Sítio com imensa área ao ar livre, obviamente.  

Daí fico imaginando o que significa “ficar trancada” e em “isolamento social” para essa celebridade. Não deve ser mesmo fácil ter de lidar com a mansão, área de 100 mil metros quadrados com rio e cachoeira no quintal, pomar, horta, vaca, galinha, piscina olímpica aquecida, assessora, duas babás, cozinheira, caseiro e a prendada esposa dele que faz os serviços domésticos. Quase um Maracanã de gente. Isolamento super rigoroso.

A esteticista vai de dez em dez dias cuidar da pele, aplicar tratamentos ‘anticelulite’, botox, preenchimentos diversos. A cabeleireira vai uma vez por  semana. “Não sou obrigada a ‘embarangar’ só porque existe um terrível vírus lá fora. E o Bolsonaro queimando os ursos polares da Amazônia. Eu quero criar uma ONG “Salvem os Ursos Polares da Amazônia!” A gente que é celebridade tem de ser politizada e engajada. Não podemos nos alienar.” 

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