Para o Meu Pai

Comportamento

Letícia Dornelles

Publicado em 21/07/2020

Quando eu era criança, a imagem do meu pai era a de um homem muito ocupado. Saía de manhã para o quartel e só voltava para casa no final da tarde. Chegava, dava um selinho na boca da minha mãe e ia trocar de roupa. Tirar a farda. E talvez o fardo de seu longo dia. Silencioso, ele ia regar as plantas de nosso jardim. Havia abacateiro, mangueira, coqueiro, maracujá, pitangueira, samambaias e muitas flores. Ficava horas entretido com o jardim. Era uma espécie de terapia. De momento íntimo dele ajustar os pensamentos.

Meu pai nunca foi de conversar comigo. Não perguntava sobre o meu dia. Era rigoroso. Disciplinador. Algumas vezes, chegava a ser ríspido. Quando não gostava de algo, me olhava firme como reprimenda. Não tinha o hábito de me levar para passear. Eu sempre tentei chamar a atenção dele para alguma coisa boa que tivesse feito. Queria a admiração daquele homem seco. Mas cuidar de mim era tarefa da minha mãe.

Nas férias, aguardávamos o recesso de fim de ano do quartel, pegávamos o carro e íamos passar as festas na minha pequena Uruguaiana, cidade no interior do Rio Grande do Sul. Lá, meu pai parecia outro homem. Brincalhão, o genro mais paparicado pela minha avó, aquele que comprou a casa onde ela e meu avô moraram durante anos, o cunhado chamado de irmão, o amigo dos meus primos, o melhor tio, o mão aberta que comprava doces e presentes para todos. Eu o observava. Talvez ele me odiasse. Talvez fosse a frustração de eu não ter nascido menino. Tanta incerteza me passava pela cabeça.

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