Mais realistas do que o rei

Comportamento

Carlos Maltz

Publicado em 07/07/2020

A cena é a mais cotidiana e insignificante possível. Beira o boçal. Estas me parecem as mais adequadas para se avaliar as grandes questões do ser humano. Estou na frente do minimercado. Minha mulher está lá dentro fazendo compras. Fiquei do lado de fora esperando, para não ter que usar a máscara (na verdade, tenho uma paranoia inconfessável de que aquele negócio que eles usam pra ler a temperatura de meu corpo na verdade pode ler os meus pensamentos. Sim... quem não deve não teme. Mas... como eu devo... temo).

Estou sem celular. É noite. Poucas pessoas passando. Todos de máscara. Protegidos. Caminham confiantes e com um olhar furtivo de quem me repreende mas não quer parecer que está repreendendo alguém por não estar de máscara. Pessoas comuns. Nenhuma mulher vestida de mulher. Nenhuma pessoa com um olhar levemente estranho. Nenhum cachorro. Absolutamente nada para ver ou fazer. Sou obrigado a pensar. Em quê? Se lá. Na vida. Na minha vida? Vou para longe. Lembro do Bobby, meu cachorro vira-lata da infância (sim, naquele tempo os cachorros tinham nome de cachorro).

Passa o carro. Nem grande nem pequeno. Nem muito nem pouco. Nem rápido nem devagar. Cinza metálico. É óbvio. Vidros hermeticamente fechados. Lá dentro , o personagem de minha reflexão: o cara sozinho de máscara.

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