Ódio do bem

Comportamento

Letícia Dornelles

Publicado em 19/05/2020

Queria entender o conceito de “inveja boa”. A pessoa diz: “olha, eu tenho inveja do seu cabelo, mas é inveja boa, viu? Do bem.” Para mim, falou que tem inveja, já me benzo. Se tiver água benta por perto, mergulho. Não existe o bem onde a raiz é o mal. Quem fala que sente inveja, seja lá do que for, tem o toque do mal no coração. Porque inveja não é querer algo igual ao que você tem e, às vezes, conseguiu com muito esforço. É além disso. Inveja é desejar que você não tenha aquilo, porque você não merece, e apenas a pessoa que fez o comentário se vê merecedora daquele cabelo. Ou daquele emprego. Ou daquela casa bonita. Ou daquela família amorosa. A pessoa inconscientemente deseja que você não exista. Que o lugar seja dela. Quer ser você.

Quando eu era criança, era comum as mães levarem os filhos muito fofos e lindinhos para os padres benzerem, para evitar o “quebranto”, o ‘olho gordo”. Colocavam até medalhinha de Nossa Senhora no berço para evitar a negatividade no bebê. As crianças recebiam visitas, elogios, “ai queria ter um bebê assim”, “dá para mim”? Ingenuamente, as mães sorriam e não percebiam a negatividade. Quase sempre os bebês começavam a chorar, a ter cólicas, sono inquieto. Era o tal mau olhado. Haja água benta.

Tive uma vizinha que, cada vez que visitava a minha mãe, elogiava as nossas plantas bem cuidadas. As samambaias amanheciam murchas, as flores perdiam o viço. Olho ruim demais da criatura.

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